quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009

Parabéns, Obama

Tal como o Jorge diz, aqui mesmo em baixo, também eu só tenho conhecimento do discurso de Obama a partir do pequeno vídeo da CBS. Lerei o discurso completo logo que possa. Para já, deixo duas breves notas: (1) Quem quiser ser justo com Obama não poderá deixar de reconhecer o seguinte: G W Bush não teria sido capaz de discursar de forma diferente ou melhor; Obama esteve bem e à altura das suas responsabilidades. (2) Os noruegueses bem mereceram o que ouviram e outra coisa não seria de esperar da decisão de atribuir o Nobel da Paz ao recentemente eleito Presidente dos EUA.

Bem-vindo à realidade


Não consegui ainda ver, ouvir ou ler todo o discurso de Obama, na recepção do Nóbel.

O curto vídeo para já disponível deu para ouvir que:

- Temos de começar por reconhecer uma dura verdade: não vamos erradicar conflitos violentos no tempo das nossas vidas;

- Haverá alturas em que as nações agindo individualmente ou em concerto acharão o uso da força não apenas necessário, mas moralmente justificado;

- Olho para o mundo como ele é: não posso reagir passivamente às ameaças ao povo americano;

- Não se enganem: o mal existe no mundo;

- Negociações não convencerão os líderes da Al-Qaeda a baixar as armas;

- Dizer que a força pode ser necessária não é um apelo ao cinismo, é um reconhecimento da história, das imperfeições do homem e dos limites da razão.

Bem-vindo à realidade. Espero pela parte menos metafísica do discurso - para já, aplaudo -, para ver no que isto dá.

Cachimbo no feminino


Talvez na tabacaria, em vez da revista

Ana, tenho alguma dificuldade em montar cachimbos alheios.
O meu é um Peterson Commodore - bem menos maleável do que o Dunhill.
(E a escolha do Dunhill é tão feminina... Se quer ser marido de alguém, devia arranjar um cachimbo a sério.)

Um mouro de trabalho

O que faz correr este mouro de trabalho?

Assim, que me recorde, só nos últimos meses, ele

- Foi à Líbia celebrar o 40º aniversário da permanência de Kadhafi no poder, onde teve, entre outras coisas, ocasião de assistir a um belo espectáculo de luz e cor, com um quadro edificante sobre a sorte que no país é dada aos inimigos do déspota e assassino mais kitsch do universo;


- Apoiou até ao fim a candidatura de Faruk Hosni, ex-ministro da Cultura do Egipto, a Director Geral da Unesco (a vergonha do embaixador português naquela organização foi tal, que se recusou a votar, pelo que teve de ir à última hora, das Necessidades, um votador substituto à reunião magna convocada para resolver a sucessão no cargo), conhecido pela sua declarada intenção de queimar todos os livros hebraicos existentes nas bibliotecas do seu país, bem como pelo orgulho com que afirmou ter participado no apoio ao sequestro terrorista do Achille Lauro; Amado perdeu, mas bateu-se denodadamente;

- Esteve quase sozinho, entre os seus parceiros ocidentais, no apoio, nas Nações Unidades, ao Relatório Goldestone, um relatório encomendado pela Comissão dos Direitos Humanos daquela organização com a expressa missão de condenar Israel, pela sua acção contra o terrorismo em Gaza, em Janeiro deste ano;

- Esteve com todo o activismo possível no apoio à versão inicial da proposta sueca aos ministros dos Negócios Estrangeiros dos 27, visando estabelecer Jerusalém Oriental como capital do futuro Estado palestiniano, no que foi uma vez mais derrotado.

Supondo que não é um ódio insanável a Israel que o move, permanece a pergunta: mas move-o o quê? O lugarzito no Conselho de Segurança das Nações Unidas? Só isso? E vale tudo? Até mesmo vender o prestígio externo de Portugal como voz democrática e portadora de valores no concerto das nações?

Porque não também o Nobel da Literatura?

É Isso Mesmo

quarta-feira, 9 de Dezembro de 2009

A pegada ecológica de Sócrates

Esta linda coisa a que pudemos assitir hoje é o efeito explícito (porque há e haverá outros menos manifestos) de mais de quatro anos do Sócrates primeiro-ministro, com o seu modo peculiar de se dirigir às oposições. Temos tido um primeiro-ministro que, no parlamento, agredindo e troçando dos deputados, parece (como bem apontou Manuela Ferreira Leite) não ter consciência do lugar que ocupa e do cargo que desempenha. O seu comportamento em debate parlamentar oscila as mais das vezes entre o do valentão de feira provocador e o do malcriadão atabernado. A Louçã grita 'Tenha tento na língua!', a Rangel atira um 'Não seja ridículo!', virando-se para Portas, humilha-o com 'Tenha mas é juizinho!', quando Jerónimo de Sousa lhe dirige a palavra, revira os olhos e faz caretas para a sua trupe, dirige-se a Manuela Ferreira Leite ou a Heloísa Apolónia com as maneiras de um negreiro a repreender a criadagem, etc.
Isto, pelo lugar exemplar que o homem ocupa, continuado e reincidido, acaba por ter os seus efeitos. Propaga-se por contágio, gera um ambiente de confronto azedado, enodoa a linguagem política. Como se vê. E se verá.

Equívocos da luta de classes



Sempre pensei que a luta de classes é um somatório de equívocos. «Palhaço», para as pessoas do Campo Grande (atenção: a história da linha é falsa!), quer dizer palhaço. Para, como dizer?, as pessoas mais populares, por qualquer razão que não consigo entender (mas também não sou antropólogo ou linguista) é pior do que sei lá o quê. Quem anda de taxi sabe do que falo.

As aleivosias do PSD

Ando para dizer isto há uns dias: o PS tem muita razão de queixa do PSD. Estes deputados do PSD são uns extremistas, uns radicais, uns verdadeiros celerados. E, sobretudo, uns grandes ingratos. Então o PS instalou computadores individuais para cada deputado (a propósito, fui só eu ou mais gente notou uma substancial melhoria da qualidade da nossa democracia devido aos computadorezinhos no nosso hemiciclo? - tão longe daquela patética Câmara dos Comuns, onde os MPs se sentam apinhados em bancos corridos desconfortáveis) e os deputados do PSD, em vez de se dedicarem a pôr os mails em dia, de passarem os olhos pelos sites da comunicação social, de lerem aqui o Cachimbo, de renovarem as assinaturas das revistas estrangeiras, de visitarem os sites da Four Seasons e da Ritz-Carlton e da One&Only para planearem as férias seguintes, pretendem (mesmo!) fiscalizar os governos Sócrates? Em vez de agradecerem, penhoradamente, ao PS e aproveitarem os momentos de descontracção que o PS lhes proporciona, quem uma comissão de inquérito ao negócio do governo e da JP Sá Couto com o Magalhães, feito por ajuste directo? Não sabem que as salas onde reúnem as comissões ainda não têm computadores individuais? Em vez de lazer querem preocupar-se com o passivo de cerca de 600 mil euros da Fundação para as Comunicações Móveis? Onde já se viu isto? Uma oposição a fazer, de facto, oposição? Uns radicais. Uns extremistas. Uns fundamentalistas. Uns marinheiros de água doce. Uns invertebrados. Uns Vercingetorixes de Carnaval. Uns renegados. Não foi para isto que votei no PSD nem que pago os ordenados dos seus deputados com os meus impostos. Descontraiam, senhores deputados do PSD. Aproveitem o tempo na AR para marcarem uma massagem relaxante de aromaterapia num spa. E deixem os senhores do PS governarem sem incómodos. Já se viu, de resto, que no PS têm tanto jeito para nos governarem.

O fenómeno


Se este senhor não existisse, tinha de ser inventado. Olhem para a habilidade, a delicadeza com que estabelece o foco da frase em que avalia a declaração saída da reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros da UE sobre o conflito Israelo-árabe: «Foi dado um passo importante no sentido de se retomar o papel que a União Europeia deve ter neste processo, não deixando totalmente a iniciativa à administração americana». Note-se que a questão não é tanto a da ninharia do processo em si, mas a do monopólio da iniciativa pela América.

Quanto à declaração propriamente dita, considera este génio diplomático que ela «é equilibrada e coerente», já que exerce uma «pressão diferenciada». Equilibrada? Bem, lá «coerente» e «diferenciada» é a declaração: não há nenhuma exortação especificamente dirigida à Autoridade Palestiniana - que se recusa a iniciar as negociações -, salvo um vago apelo à «melhoria da ordem e da lei» (artigo 7º), nos territórios que administra, e, aos palestinianos em geral, para que se unam em torno de Mahmud Abbas (artigo 10º). Em contrapartida seria fastidioso inventariar as pesadas críticas dirigidas ao Estado de Israel: bloqueio a Gaza, muro de segurança, alegadas discriminações, colonatos, etc., etc., etc.

Considera este iluminado que a UE deu um passo para retomar iniciatva no processo de paz. Um detalhe de somenos: um processo de paz envolve a aceitação, das partes em conflito, daquele que quer participar na intermediação, isto é, o reconhecimento, por parte de ambas, de que o eventual mediador está de boa-fé no processo, como parte terceira.

Não ocorre (?) a esta cabecinha que a pressão, à força de ser «diferenciada», para usar o seu eufemismo, aliena completamente a confiança necessária de uma das partes: neste caso, Israel. A coerência tem o seu preço, Mr. Amado.

Ou então: Amado não é o génio que parece, e está em tudo isto a jogar noutro tabuleiro, onde o monopólio ou oligopólio da iniciativa no processo de paz é irrelevante, para não falar no processo de paz em si mesmo. Vendo bem as coisas...

Ainda a tempo (1)

Voltemos, quase um mês de ausência depois, aos posts que me foram dedicados a propósito do Prós e Contras sobre o "casamento" gay.
Antes de mais, um pequeno esclarecimento que ainda incluí nos comentários a este post. A célebre pergunta que fiz em directo a Miguel Vale de Almeida (se ele tenciona ou não casar, no caso de ter legalmente essa oportunidade) era dispensável, mas não pelas razões invocadas por muita gente. O que está mal na pergunta é a fulanização do debate, um debate que deveria ser geral e abstracto como a própria lei que se discute.
A pergunta, porém, não é uma violação da privacidade. O casamento é mais do que uma relação íntima entre duas pessoas: é um contrato que formaliza publicamente essa relação. E os seus efeitos legais, tanto no que diz respeito aos dois cônjuges, como no que diz respeito a terceiros - os filhos. Uma relação íntima tem direito à máxima privacidade, em princípio, se os envolvidos assim o desejarem. Mas quando se converte em casamento, passa a ser pública. Façam o favor de ler Código Civil, que define casamento, no tal artigo polémico que o PS quer alterar, como "o contrato celebrado entre duas pessoas de sexo diferente que pretendem constituir família mediante uma plena comunhão de vida". Julgo que todos concordaremos ser a plena comunhão de vida algo de profundamente íntimo, mas está na lei. Assim como outro artigo dedicado à "Publicidade e solenidade" (sic) do casamento: "A celebração do casamento é pública e está sujeita às solenidades fixadas nas leis do registo civil."Quem invoca o direito à privacidade, que eu também defendo, para ver na minha pergunta uma ofensa, está apenas a mostrar uma grande ignorância - fingida ou real - sobre o casamento.
Isto diz muito sobre os defensores do "casamento" gay. Porque, no fundo, não lhes interessa o casamento enquanto instituição, com um conteúdo público e definido (e este ponto fundamental fica para o post seguinte), mas apenas o símbolo, que dá o reconhecimento social e a correspondente "dignidade", mantendo a "comunhão de vida" que o justifica fora do escrutínio público. Querem apenas o exterior do casamento: a respeitabilidade.
No que mostram ser mais conservadores do que julgam.
Começar pelo casamento para chegar à utopia é tão burguês, camaradas. É tão romance de cordel. É tão, sei lá, revista Maria...
Sejam revolucionários: exijam o impossível, não as noivas de Santo António. Levem a imaginação ao poder, não @ voss@ companheir@ ao registo. Se não querem responder a perguntas incómodas, garanto-vos que o casamento não é o melhor caminho.
(Amanhã continuo. A minha mulher acaba de perguntar se estou outra vez a perder tempo no blogue.)

Menor preço para a meia dúzia

Alexandre,

Essa estratégia de facilitar o programa dos outros independentemente das consequências práticas ou das preferências políticas dos restantes actores políticos não é um tanto ou quanto bizarra?

Cabe ao partido mais votado a responsabilidade primeira da iniciativa de garantir os apoios necessários para formar um governo suportado por uma maioria parlamentar. Se bem me recordo, Sócrates não só não o fez como encenou uma lamentável e tristemente vazia sessão continuada de convites para o seu desejável desfecho: acordo nenhum e governo de minoria, o que tem como consequência que em cada votação tem de negociar o voto maioritária da assembleia. Em linguagem popular, vai à feira. E quando se vai a uma feira, qual é o político português mais provável de encontrar?

Semipresidencialismo

No dia 11 de Dezembro (sexta-feira), terá lugar a sessão de lançamento do livro O Semipresidencialismo nos Países de Língua Portuguesa, de Marina Costa Lobo e Octávio Amorim Neto (orgs.). É às 18h, na Bulhosa (entrecampos).

O que só o CDS percebeu


O pior que se pode fazer a José Sócrates e ao Governo é obrigá-los a governar.

A sucessora

Maria João Seixas é a nova directora da Cinemateca. Não a conheço o suficiente para dizer se será ou não uma boa escolha, mas a sua nomeação mostra que a nova Ministra da Cultura está a arrumar rapidamente alguns dossiers complicados que António Pinto Ribeiro lhe deixou. É um ponto a favor de Gabriela Canavilhas e o exemplo do Museu de Arte Popular parece ter dado o mote. Recorde-se que João Bénard da Costa, o director da Cinemateca cuja vida se confundia há décadas com a da própria casa, se demitiu no ano passado por motivos de saúde - e sem sucessão à vista. Desde então, a gestão corrente tem sido assegurada por Pedro Mexia, que foi agora reconduzido como subdirector.
Maria João Seixas tem pela frente, portanto, um enorme desafio: o de fazer esquecer Bénard.
Pode começar por resolver dois problemas herdados do seu carismático antecessor.
O primeiro é o do alargamento do público da Cinemateca. Um público fiel, mas muito reduzido. Um equipamento cultural como este não pode estar apenas ao serviço de meio milhar de lisboetas, mesmo que sem eles não faça sentido.
O outro é o da criação de um pólo da Cinemateca no Porto. É uma antiga, e nunca atendida, exigência dos cinéfilos do Norte. Bénard da Costa opunha-se, argumentando que o transporte das películas podia causar-lhes danos, mas dificilmente se compreende que a segunda cidade do país não tenha cinema fora do circuito comercial ou dos festivais.
Em suma, falta democratizar e descentralizar a Cinemateca. Maria João Seixas, que já foi argumentista, está agora na cadeira de realizadora. Talvez do filme da sua vida.
Adenda: Um email amigo avisa-me, entretanto, que Gabriela Canavilhas já prometeu a abertura do pólo portuense da Cinemateca para o próximo ano. A notícia escapou-me, mas confirma a minha primeira impressão da Ministra: decide depressa e vem apagar fogos. O que não é necessariamente um mal. Resta saber se será uma política.

Não podia estar calado?

O que eles dizem! Nuno Morais Sarmento, representante do PSD ao Congresso do MPLA. «Angola é um país maduro.» Maduro? Se não queria dizer podre, porque é que deu a entrevista?

"Pedir batatinhas"

Certo e sabido. Mal se fizessem ouvir na Assembleia da República os primeiros estalos na cara do governo, regressariam os sensatos com os seus apelos à prudência e responsabilidade da oposição. E, claro está, ao papel mediador de Cavaco Silva. Faz sentido, é essa a função dos sensatos. (...) O que os sensatos se esquecem de dizer é que do desastre já ninguém nos livra.

terça-feira, 8 de Dezembro de 2009

Nada, como de costume

Ao fim do dia, o resultado é este.


Ao cabo de muito ponderar, a UE na sua imensa sabedoria acabou por alterar o seu projecto para Jerusalém, que, de capital do futuro Estado palestiniano, passou a capital de dois Estados. Vá lá, dois sempre é o dobro de um.

Há apenas um ligeiro detalhe descurado pelos sábios ministros europeus: o principal obstáculo ao início das negociações de paz - a recusa da Autoridade Palestiniana - não é aflorado. Ah! Ok: e de «nota», a UE passou a «tomar nota positiva» relativamente à moratória do Governo de Israel à construção nos colonatos.

Ao fim do dia, nada, como de costume.

O Inverno Demográfico



Nestes dias em que tanto se fala, e ainda bem, do aquecimento global a propósito da cimeira de Copenhaga, convém recordar um outro fenómeno global não menos preocupante: o progressivo declínio demográfico, sobretudo das sociedades ocidentais. Há cada vez menos crianças, em muitos casos, nem sequer as suficientes para a renovação de gerações. Esta tendência terá consequências sociais e económicas desastrosas a médio prazo. Segundo Philip Longman (autor do livro The Empty Cradle: How Falling Birthrates Threaten World Prosperity):“The ongoing global decline in human birthrates is the single most powerful force affecting the fate of nations and the future of society in the 21st. century.” Convém lembrar que não há memória histórica de períodos de prosperidade económica com quebras de população. Bem sei que não é politicamente correcto, nem está na moda falar disto, mas aqui pelo Cachimbo gostamos de ser contra corrente. Para ver o filme Demographic Winter ou saber mais sobre este tema ver aqui.

Lá está Portugal a jogar ao ataque contra Israel...

Vai sendo hábito: sempre que é necessário castigar Israel, o Governo português oferece os seus préstimos.

O cérebro. Da coisa.

O último episódio está hoje a decorrer, numa reunião dos ministros dos Negócios Estrangeiros, em Bruxelas.

A Suécia, antes de abandonar a Presidência, quis deixar uma marca. Decidiu propor aos pares uma iniciativa, em que se toma posição face ao conflito israelo-árabe. Já dei todas as voltas à cabeça para tentar perceber porquê a iniciativa, porquê naqueles termos - inclui a expressão do desejo europeu de reconhecer Jerusalém Oriental como capital de um futuro Estado palestiniano, ou seja, inclui a manifestação do desejo de ver a cidade de novo dividida -, mas não consigo vislumbrar bem a coisa.

Contribui para fazer avançar, ou melhor, relançar um processo de paz? Obviamente que não. Na forma em que foi proposta pela Suécia, a iniciativa, no seu ponto quinto, «toma nota da decisão recente do Governo de Israel de congelar parcial e temporariamente a construção de colonatos e exprime a esperança de que este venha a ser um passo em direcção à retomada de negociações significativas» (o europês diplomático é das línguas mais bacocas que existem.)

Nenhuma referência é feita à rejeição da moratória, por insignificante, por parte da Autoridade Palestiniana, até ao seu anúncio considerada, pela mesma Autoridade Palestiniana, como condição para o lançamento das ditas negociações.

Em contrapartida, a iniciativa abunda em exortações ao que Israel deve fazer, ou não fazer, para que as negociações avancem, em direcção à criação de um Estado Palestiniano, que a UE afirma querer reconhecer, mesmo antes de estar negociado, e estabelecidos os seus contornos.

É evidente que, se a proposta vier a ser aprovada nos termos em que está redigida, terá como única consequência tangível o afastamento definitivo da «Europa» (o que quer que seja que isso queira dizer, sempre que questões diplomáticas importantes estão em jogo) do processo de paz, dada a sua posição completamente viciada a favor de uma das partes do conflito e de afrontamento da outra.

Por esse resultado heróico, está a bater-se Portugal, ao lado da Irlanda, Luxemburgo, Bélgica e Reino Unido, contra o bloco liderado pela Alemanha, França, Itália, Holanda e Espanha (que vai receber a próxima presidência).

Mas talvez que tudo se explique melhor - o mistério da iniciativa, atrás referido -, se se considerar o seguinte: a irresponsabilidade política é um dos privilégios dos insignificantes. Talvez o único. Que a «Europa» esteja «dispensada», no caso do conflito do Médio-Oriente, não será consequência desta iniciativa: ela, a iniciativa, é que só pode ser explicada pela insignificância da «Europa», já irreversivelmente interiorizada. Palavras (e papéis) levam-nas o vento...

Citação montesquieuana do dia

«Numa nação livre, é muitas vezes indiferente que os particulares raciocinem bem ou mal; basta que raciocinem: daí decorre a liberdade que protege dos efeitos desses mesmos raciocínios

Ai ...é feio (eólicas) IV

(e não é só em Copenhaga. Aqui um parque eólico à saída de Amsterdão)

Não quero terminar esta série de “post” só a dizer mal.
Faça-se justiça, nos últimos anos, Portugal deu um tremendo salto qualitativo em matéria de energias renováveis. É um dos raros casos em que, claramente, o poder executivo, e bem, tem liderado e puxado pela sociedade (ou, pelo menos, não tem colocado demasiados obstáculos à iniciativa privada). E estou convicto de que se não houvesse tanta esquisitice, tipo “Ai ... é feio” ainda tínhamos mais energia eólica graças à boa política energética nesta área (noutras já não tanto).

(e não é só em Copenhaga. Aqui vemos um aerogerador em Amsterdão, que, como sabemos, também pertence a um país subdesenvolvido...)

Ai ...é feio (eólicas) III

O mesmo se passa na justiça: quer-se uma justiça rápida, mas impõe-se ao juiz um calvário de fundamentação de dezenas, centenas de páginas, muitas vezes para coisas simples e, a seguir, não contentes, em lugar de uma instância de recurso, há duas ou três, com inúmeras possibilidades de repetição de julgamentos.
Queremos combater o crime, e, por razões excepcionais, por uns meses, à experiência, autorizam-se umas câmaras, mas fixas e que apontem apenas para os pombos.
As escutas – de utilização limitadíssima – em lugar de meio de prova, como é banal noutras paragens, são um dos maiores problemas nacionais: mais vale ter crime a sério e corrupção generalizada do que escutas, não vá dar-se o caso de se vir a saber o que alguém disse.

Não nos espantemos de sermos cada vez mais um “povo atrasadinho”, com cada vez mais quadros de valor a emigrar.
Ficamos cá a servir cafezinhos à espera das gorjetas para pagarmos as dívidas que andamos a contrair.

Ai ...é feio (eólicas) II

E cá... com um défice externo considerável, também graças à energia, andamos a discutir se é bonito ou se é feio ter um aerogerador no Tejo (mas já depósitos de produtos químicos e petrolíferos não nos incomodam, nem silos de cerais, nem contentores, nem os mamarrachos urbanísticos que vão aparecendo nas margens ou que se vêm das margens).
E em vários locais do país, perante a hipótese de colocação de aerogeradores.
– Ai, é feio ... dizem...

Feio é o nosso défice externo.
Feio é o nosso endividamento.
Feia é a nossa incapacidade para definir objectivos nacionais e levá-los à prática.
(Viagens-8)

Ai ...é feio (eólicas) I

Agora que só se fala na Conferência de Copenhaga, que está a decorrer, lembrei-me das centenas, se calhar mais, de aerogeradores a rodear a cidade.


clicar para ampliar
Enquanto nós discutíamos se construíamos ou não uma central nuclear (e, no entanto, importamos energia de centrais nucleares, algumas delas bem perto da nossa fronteira, enquanto exportamos o nosso urânio) a Dinamarca, após o choque petrolífero de 1973, encetou um conjunto de reformas que a colocaram na vanguarda da eficiência e da produção limpa de energia. Veja-se, por exemplo, aqui. Não surpreende que se diga que a energia eólica representa 23 % da produção dinamarquesa aqui.
(viagens-8)

E, no entanto, a vida continua.

Nunca militei no PSD. Aliás, nunca militei em qualquer partido político. No entanto, o "bloqueio" da ponte 25 de Abril na fase final do Governo de Cavaco Silva aproximou-me irremediavelmente do PSD. Daí que tenha acompanhado com interesse os congressos que levaram Fernando Nogueira (em quem não votei), Marcelo Rebelo de Sousa e Durão Barroso à presidência do PSD. Justamente quando, salvo erro em 1999, Durão Barroso foi eleito presidente disse a mim mesmo que o melhor candidato à presidência do PSD seria, era, Manuela Ferreira Leite. Ninguém me ouviu mais que não fosse por ter ficado calado em casa a olhar para a televisão.
Entre 1999 e 2008, o PSD, Portugal e o Mundo deram muitas voltas, mas aqui e ali já dei comigo a tentar perceber o que é que teria acontecido se, em 1999, Manuela Ferreira Leite tivesse sido eleita presidente do PSD, por mais improvável que fosse tal acontecimento. Por tudo isto, e por aquilo que ela representou e representa na política portuguesa, e tal como Pacheco Pereira, não só vou ter saudades de Manuela Ferreira Leite, como já tenho saudades da líder do PSD. O pior é que as saudades não decorrem apenas das qualidades que vejo e aprecio na actual presidente dos "sociais democratas". As saudades decorrem também do facto de no PSD - ou nos partidos portugueses - não se ver ninguém que se lhe compare. Na determinação, na experiência, no bom-senso e no carácter. E, no entanto, a vida continua.

Do "ambientalismo" enquanto fenómeno religioso.

Como não crente (uns dias conservador, outros reaccionário, outros ainda ambas as coisas,) vejo com um misto de espanto e de impaciência a formação e consolidação, que aliás não é de hoje, de uma nova religião que também é "religião política". A essa nova religião chamo-lhe, sem ponta de originalidade, "ambientalismo". Segue-se esta a muitas outras como foram e são o liberalismo, o jacobinismo, o socialismo, o comunismo ou o teosofismo. Têm servido e servem todas elas para ocupar o vazio criado pelo recuo massivo do cristianismo na Europa dos séculos XIX e XX. O mesmo vazio que o cristianismo ajudou a criar e depois ocupou com sangue, suor e lágrimas na segunda metade do primeiro milénio da nossa era e que, durante cerca de oito a nove séculos, pôde e soube preencher e manter na sua posse.
Não é por isso à toa que apenas em sociedades de tradição cristã, e por causa do recuo do cristianismo, ou seja, da religião, se nota uma tão grande devoção por aquilo que por estes dias se passa numa conferência "mundial" sobre o ambiente na capital da Dinamarca. Por outro lado, e valha a verdade, muitos cristãos, com ou sem crise de fé, vêem no "ambientalismo" uma alavanca para a recuperação do fenómeno religioso que tem Jesus Cristo como inspiração.
No meio deste caos inspirado na razão (ou na falta dela), e ao qual o mundo nos habituou desde o triunfo das "luzes", confesso uma fraqueza. Tenho alguma curiosidade em saber que nova religião ocupará o vazio "espiritual" que o ser-humano não suporta, não suportou, nem suportará, ou se será o cristianismo a reconquistar o poder que não soube e/ou não pôde preservar nestes dois últimos séculos.

segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009

Diálogo interreligioso: é bom saber que Dhiyaa al-Musawi existe



Infelizmente Shiekh Ibrahim al-Khouli também. E é ele quem vai dando o tom.

Comissão de Inquérito

Ausente do país por três dias, chego ao Porto e deparo-me com a acusação que o PSD enveredou por uma "via radical e extremista". Por breves momentos, assusto-me e questiono-me sobre o que terá feito o PSD. Mas logo percebo que apenas utilizou uma das vias permitidas pelo nosso sistema político para investigar um dos negócios mais nebulosos deste governo: a entrega do Magalhães, por ajuste directo, à JP Sá Couto. A empresa nortenha cresceu 1300% num ano devido a este negócio com o Estado, passando a liderar o mercado de portáteis em Portugal, aumentando as suas vendas de 6 mil para 212 mil num ano. O que me admira é que apenas agora o PSD tenha utilizado este procedimento parlamentar para esclarecer esta negociata. Quantas empresas, portuguesas ou estrangeiras, não estariam interessadas em vender milhares de computadores ao abrigo de um protocolo com o Estado? E será que não se teria conseguido melhores condições para os cofres públicos?

Esta reacção extemporânea do PS também diz muito da sua apreensão perante esta Comissão de Inquérito. Em vez de transmitir confiança no processo de aquisição dos computadores, o PS ataca a constituição da comissão, e lança epítetos ridículos e exagerados sobre o PSD, tentando relegar para segundo plano a verdadeira questão. O PS, completamente atolado em processos menos claros, tem vindo a perder o discernimento e a clareza na defesa da sua governação. O que diz muito da consistência deste governo.

Livros que valem a pena


A Guimarães Editores, agora sob a liderança e dinamismo de Paulo Teixeira Pinto, acaba de reeditar o livro Sinais de Fogo, o único romance de Jorge de Sena, um dos mais fascinantes - e desconhecidos - escritores portugueses do século XX. Texto longo e denso, mas que vale a pena o esforço.

Mais um valoroso guardião do Estado de Direito, da Constituição, etc.

Aqui e aqui.

O banimento dos minaretes e o anti-semtismo: dislates e confusão

A abrir: considero lamentável que os minaretes, quer dizer, um dos símbolos da existência pública de uma religião - neste caso o Islão -, tenham ido a referendo na Suíça. Sei que o problema dos minaretes é mais complexo, mas o que quer que seja que o complique não pode ignorar o elementar, o simples: os suíços foram chamados a pronunciar-se sobre se toleram, ou não, a presença pública de um símbolo religioso, quando semelhante questão jamais deveria ter sido colocada, jamais deveria ter tido legitimidade para ser colocada. O resultado, com a aceitação do banimento, conferindo-lhe «legitimidade democrática», foi grave. Gra-ve.

Dito isto, penso que a avalanche de artigos sobre a «islamofobia» e a abstrusa comparação com o anti-semitismo dos anos 30 são totalmente infundadas. Mas é próprio da preguiça mental reduzir tudo ao já sabido, o novo e inédito ao antigo e compreendido (?), sobretudo se isso serve uma estratégia discursiva militante, de alarme. De pura propaganda.

E, na Europa, onde o anti-semitismo está mais vivo, hoje, do que nunca, depois do pós-guerra, designar as populações residentes árabes, ou muçulmanas, por «novos judeus» tem dois efeitos: rasura completamente a possibilidade de compreensão da «islamofobia» e sugere que o anti-semitismo desapareceu. O que é gritantemente falso.

Rui Tavares, muito mais mais preguiçoso do que é costume, hoje, na sua crónica no Público, recorre estrategicamente a «um dos melhores cronistas do mundo», «um israelita», para fazer passar como aceitável este dislate: «Parece que o anti-semitismo se deslocou de um povo semita para o outro. Na Europa do pós-holocausto é difícil ser antijudeu, e por isso os anti-semitas se tornaram anti-muçulmanos.» Não é por ser israelita, nem tão-pouco refugiado, que o «melhor cronista do mundo» deixa de ser parvo.

Rui Tavares consegue reescrever e avalizar isto sem pestanejar - que o anti-semitismo - quer dizer, o ódio antijudaico na sua forma moderna, racial e não eminentemente teológica - desapareceu, e se transferiu de armas e bagagens para o antimuçulmanismo.

Não: na Europa de hoje não é nada difícil ser-se antijudeu; ser-se antijudeu está mesmo em maré alta, com os seguintes contornos, como incisivamente os descreveu Amos Oz, no seu pequeno livro Contra o Fanatismo, que, por o não ter à mão, cito de cor e sem aspas: nada de novo na Europa anti-semita; nos anos 30, as paredes diziam: «Judeus para a Palestina!». Hoje é assim: «Judeus fora da Palestina!». O que redobrou de sentido a afirmação de Hannah Arendt: face ao anti-semitismo, só na Lua se está a salvo. E, de facto, como muito bem viu Martin Luther King há algumas décadas, a forma mais expedita de um anti-semita, depois do Holocausto, não perder a cara é, hoje, impugnar o direito à existência do Estado de Israel. Exercício em que se compraz todos os dias um verdadeiro exército de escribas, uma vez mais de forma enviesada, sob a capa da difamação permanente, da desinformação, da equivalência moral constantemente estabelecida entre Israel e os terroristas que estão apostados na sua destruição, tratando-se de analisar e narrar o conflito israelo-árabe, etc. Mas regressemos à questão dos minaretes.

Em primeiro lugar, a «islamofobia» existe. Quero com isso dizer: parece-me que existe, de facto, um sentimento difuso de medo e rejeição das comunidades muçulmanas na Europa. A dimensão que atingiram essas comunidades e a assertividade com que afirmam a sua presença e reivindicam a sua identidade é uma das faces do problema. O Outro é sempre, potencialmente, um problema. Não há nisso nada de especial, nem novo.

Mas, a meu ver, não são as manifestações de alteridade dos muçulmanos europeus, a orgulhosa reivindicação da sua identidade e diferença, que, por si, desencadearam a situação em que vivemos. Múltiplos factores entrarão, por certo, a complicar a análise, mas há um, elementar, que não pode deixar de ser referido. As comunidades muçulmanas da Europa são o cadinho de recrutamento do terrorismo, às mãos do qual caíram as Torres Gémeas, se deram os atentados de Londres e Madrid, etc., se vai construindo a insegurança em que passámos a viver. Que haja muita gente de boa vontade no meio delas, que quer viver numa terra de liberdade e prosperidade comparativa? Não é isso que está em questão: em contrapartida, não é sem importância para o caso em apreço que não consigamos perceber da parte dos líderes islâmicos europeus uma inequívoca condenação dos terroristas e das tendências extremistas que proliferam no seu seio.

Para me servir de um exemplo de que se socorre o próprio Rui Tavares, na crónica de hoje, Mohammed Atta, «o terrorista que espetou o primeiro avião contra as Torres Gémeas de Nova Iorque», não veio dos desertos da Arábia, nem das montanhas do Afeganistão: estava entre nós. Na aparência, estava perfeitamente integrado na sociedade de acolhimento: era urbanista, fiquei a saber. A afirmação de que o terrorismo que nos ameaça se recruta nas comunidades islâmicas europeias não é um preconceito contra elas: é um facto.

O que coloca o problema da sua relação, da sua capacidade de integração e convivência com os países e as sociedades de acolhimento. Os líderes islâmicos europeus terão uma palavra decisiva na demonstração de que essa integração é possível, que há um terreno, uma base de valores fundadores comum a cristãos, muçulmanos, judeus ou não religiosos, que torna a sua co-existência viável, nas sociedades liberais do Ocidente.

O que nos remete para a diferença que me trouxe aqui: nunca «a questão judaica», na Europa, se colocou em tais termos. Os judeus foram acusados de dominar, por excesso de participação, as sociedades europeias: representando, na Alemanha, na Rússia ou na Polónia, parcelas da população mais ou menos diminutas, a sua «quota» de profissionais liberais, jornalistas, artistas ou políticos foi sempre desproporcionadamente grande. O problema nada tinha - nem tem - a ver com o percepção de uma ameaça, por crescimento demográfico e dissensão religiosa, cultural e política. O problema do anti-semitismo é outro, infinitamente mais intratável, e qualquer comparação entre a islamofobia e o anti-semitismo só pode ter um efeito: deturpar ambos.

Ponto de ordem

Alexandre,
uma "avaliação dos professores" (que não passa de um engodo demagógico para aplacar consciências desresponsabilizadas), para mais tendo em conta o "sucesso" dos alunos, não faz qualquer sentido. Pelo menos, com a Escola que temos. Alterem-se as condições de trabalho e de estudo das escolas, racionalizem-se os horários de professores e de alunos, diminua-se a quantidade disparatada de disciplinas que os sobrecarregam, alterem-se os programas curriculares pejados de idiotices estupidificantes e então, depois, fale-se de "avaliação".

Não é por nada, mas...

Foi quando fumou um charro sem dar por isso que Passos Coelho leu aquele livro do Sartre que não existe?

domingo, 6 de Dezembro de 2009

Professores que não precisam de alunos


Acabo de ler o documento que o Ministério da Educação enviou aos sindicatos de professores, onde se apresentam os ‘princípios para a revisão do modelo da avaliação’. Gostaria apenas de deixar uma nota sobre algo que, para além de não estar nas preocupações dos sindicatos, Governo e Oposição, pela sua ausência, desqualifica esta avaliação.
O professor ocupa uma posição determinante no sistema de Educação de um país: é ele que transmite os conhecimentos aos alunos, que os forma nas ciências que domina, assim preparando os jovens alunos para o exercício da sua cidadania. É esta a sua função, assim como a responsabilidade que assume ao exercer a profissão; tal parece-me indiscutível. Ora, seria expectável que aquilo que diz respeito à sua função estivesse de algum modo presente na sua avaliação de desempenho. Não está. Não existe qualquer referência ao desempenho dos alunos. Aliás, não há qualquer referência a alunos tout court: o termo ‘aluno’ nem sequer consta no documento. Ou seja, esta 'avaliação' não está a avaliar o professor, está apenas a analisar a forma no desempenho dos seus deveres profissionais.
Assim, aquilo que diz respeito à sua responsabilidade não é considerado. Teremos professores avaliados, com melhores ou piores classificações, mas nunca saberemos sobre os seus méritos e as suas reais competências, i.e. as suas capacidades em transmitir os conhecimentos aos alunos, e em melhorar o desempenho dos alunos. Depois de um longo e doloroso processo político para a avaliação de professores, continuaremos a não saber nada sobre a qualidade real de quem ensina. Professores e políticos podem achar que, dadas as circunstâncias, ficaram a ganhar. A verdade é que ficámos todos a perder.

Ou quê?


Depois de cinco mil estágios na Administração Pública, agora é a vez das autarquias, com mais dois mil, para jovens.

«Nós estamos a fazer o nosso melhor para que haja mais emprego no nosso país», explica, sem rir, o primeiro-ministro.

Depois do aumento do salário mínimo nacional, num momento em que a taxa de desemprego atinge recordes absolutos, depois de sucessivos avisos de todos os observadores da economia portuguesa alertando para a impossível carga dos salários das administrações na despesa pública, depois... a pergunta é: ele é louco, ou quê?

P.S.: Quis acreditar que, depois de a Comissão Europeia e do Fundo Monetário Internacional terem traçado um quadro literalmente sinistro da situação económica do País, depois da Comissão Europeia ter imposto um quadro de consolidação orçamental que envolve uma redução do défice estrutural - quer dizer, do défice descontado dos efeitos do ciclo económico -, de 1,25 pontos percentuais por ano, para os próximos anos, depois dos anúncios, para concretizar em breve, de novas baixas de classificação da dívida soberana por parte de duas agências de rating, depois de terem sido acesos todos os sinais vermelhos possíveis, e tendo em conta que o Governo está à entrada de uma legislatura, Sócrates, malgré lui, ia ter juízo e impor juízo à sua volta. Querendo ou não, dada a ameaça de guilhotina nos mercados - os mercados em que se financia o Estado, os mercados a que a banca tem de ir todos os dias para financiar o seu colossal gap de liquidez, - Sócrates iria ter de governar a pensar em como evitar o abismo para que nos tem conduzido, abismo de que só pode sair ele próprio queimado. Pensei mal. Wishful thinking não leva a nada. Os sinais do primeiro-ministro estão exactamente nos antípodas dos que se exigiam face à situação. Resta perguntar: quanto tempo vai durar esta agonia?

Sharia já se aplica em Espanha

Mulher adúltera sequestrada e condenada à morte por Tribunal islâmico da Catalunha aqui.



Por outro lado, lê-se no Público que:

Martin Rose, director do projecto A Nossa Europa Comum, para a coexistência de muçulmanos e não muçulmanos na Europa, recentemente lançado pelo British Council refere que:
«O referendo na Suíça foi "um sinal alarmante" de como "há um sentimento muito mais forte do que esperaríamos, um medo do outro". Rose diz que "preferia não usar a palavra islamofobia, mas é difícil encontrar outra". Uma forma de racismo? "Aquilo a que antes chamámos racismo, mas em que a raça agora é substituída pela religião." »

Transcrições de outras escutas famosas


Transcrições de outras escutas famosas (relembrando o passado)

- Eu sempre disse que queira ser julgado na televisão.
- Mas porquê?
- Porque na televisão estou olhos nos olhos com as pessoas e eu sou uma pessoa frontal
e também há aquela vantagem pequenina de na televisão ninguém ir preso
(…)
- Quais documentos? Quem é que falou em documentos?
- Por amor de Deus, o Major acabou de falar em documentos… temos isto gravado.
- Mas vocês estão a gravar isto? Então, mas agora eu não posso falar com ninguém que não ponham a gravar…

"Há uma coligação negativa contra si?"

Por outras palavras, e para muitos "jornalistas", quem se coliga contra José Sócrates no Parlamento ou contra Passos Coelho no PSD coliga-se sempre negativamente. Sócrates e Coelho são a luz, os outros são as trevas. E assim sucessivamente.

Importa-se de repetir?

PPS, o candidato das metáforas Molaflex

"Nomes com quem se o povo néscio engana"

Mais um que não sabe o sentido de 'velho do Restelo'.

Niqab vs biquini

No Líbano. Foto roubada daqui, por sua vez roubada daqui. Interessante artigo sobre a mulher libanesa e a lei aqui. E estas fotos com as mulheres iranianas antes e depois de 1979 (até tem fotos dos concursos de beleza) aqui.

Rabo Bank (Amsterdão)


Numa viagem há sempre coisas que nos surpreendem. Diferenças linguísticas que desconhecíamos, modos diferentes fazer as mesmas coisas ou perspectivas diversas do mundo.
Em Amsterdão comecei a ver bastante publicidade ao “Rabo bank”, nomeadamente, em bicicletas.
("clicar" para ampliar e ver a publicidade na bicicleta)



Andava curioso, até que finalmente o encontrei. Aqui está ele com uma holandesa típica (com véu islâmico) à frente.

De notar que o "Rabobank" tem um plano especial de incentivo à utilização da bicicleta aqui (uma ideia que poderia ser copiada pelas nossas empresas anunciantes em lugar de gastarem fortunas na compra da imagem de personalidades mediáticas, como o Pierce Brosnan).
(viagens-7)

Lapidar


Leo Strauss a Gershom Scholem, 7 de Julho de 1973.

De tempos a tempos, também folheio Heidegger. Depois de muitos anos, compreendi o que nele é falso. Uma inteligência fenomenal, que repousa numa alma kitsch; posso demonstrá-lo. Quando li umas declarações dele, de 1934, onde se caracteriza «como um camponês da Floresta Negra», acordou-se em mim - sim, em mim! - o desejo de ser um intelectual*, ou tornar-me num.

* Dado o desprezo a que vota a «República das Letras» (Cf. On Tyranny), compreende-se melhor a intensidade do horror ao «camponês da Floresta Negra».

A Porta dos Infernos


Publicado no i

Se as boas intenções não salvam nenhuma alma do inferno, também não chegam para fazer um grande romance. Laurent Gaudé, um dos nomes da nova literatura francesa, desceu ao inferno e voltou de lá com um livro menor nas mãos. A culpa é do pesado caderno de encargos a que se lançou: a dissolução de um casal que perde o filho, o desejo de vingança que não se concretiza por falta de coragem e um pai que se sacrifica para resgatar a alma da criança, numa recriação do mito de Orfeu. Junte-se o quarteto extravagante de personagens secundárias, que inclui um travesti de bom coração e um padre subversivo, e o resultado é uma espécie de viagem ao inferno de Dante, com Almodóvar no lugar de Virgílio.

Pippo, o filho de Giuliana e Matteo, é atingido mortalmente por uma bala perdida durante um tiroteio entre clãs da Camorra. Para mitigar a dor, Matteo vagueia pelas ruas de Nápoles como uma sombra sem destino nem consistência. É a vontade de vingança alimentada pela mulher que o traz de volta à realidade. Na impossibilidade de reaver o filho, Giuliana exige a Matteo que encontre e mate o assassino de Pippo. Mas quando finalmente tem oportunidade de o fazer, Matteo acobarda-se e regressa a casa sem o sangue do carrasco. Desesperada com a fraqueza do marido, Giuliana abandona-o. A sua forma de lidar com a dor é através do esquecimento. Esquecer o marido, a vida que teve e o filho que perdeu. Matteo regressa às deambulações nocturnas e é então que conhece o grupo de personagens excêntricas que, inesperadamente, acaba por guiá-lo ao inferno e à redenção.

A combinação entre o real e o fantástico, entre as ruas de Nápoles e as profundezas do Reino dos Mortos, entre a monstruosidade física de Grace (o travesti) e a amargura silenciosa de Matteo, requer versatilidade. Mas a solução de Gaudé passa por empilhar, sem grande subtileza, blocos de mitologia solene, realismo visceral e tragédia familiar, sepultando a verosimilhança e as boas intenções. De todas as personagens, incluindo as que não se distinguem de uma caricatura grosseira, é a de Giuliana a que corporiza os defeitos do livro. As manifestações da sua dor – as imprecações revoltadas, os bilhetes que coloca entre as pedras das igrejas e a auto-mutilação – são artificiais e quase burlescas no arremedo de pathos bíblico. “Quando voltares, lavarei a tua roupa suja de sangue” e “Restitui-me o meu filho, Matteo. Restitui-mo ou, se não puderes fazê-lo, entrega-me pelo menos aquele que o matou!” são falas que colocam o leitor a salvo de qualquer ameaça de compaixão. Em vez de demonstrar o desespero de uma mãe enlutada, Gaudé encena o sofrimento com requintes litúrgicos, como se a personagem não fosse mais do que uma múmia literária a simbolizar o arquétipo da mater dolorosa. Não convence, nem comove.

Sempre demasiado explicativo, Gaudé vai arriscando alguma filosofia ao longo do livro: a vida pode ser um verdadeiro inferno; a dor pode transformar um homem numa sombra; esquecer os que partiram é condená-los a uma segunda e definitiva morte. Boas intenções, misticismo sofrível. Por vezes, o melhor é deixar os mortos em paz.

O Minarete do Restelo


Concorda com a construção da Igreja de São Francisco Xavier de acordo com o projecto do arquitecto Troufa Real ?
Esta poderá ser a pergunta do primeiro referendo local do município de Lisboa. Não está causa tanto o facto do arquitecto Troufa Real ser um conhecido maçom, mas sobretudo a circunstância de ser o autor do projecto que, a ser construído, seria o maior mamarracho do Século XXI em Lisboa.

Uma boa decisão

Pelo 31 da Armada e pelo 5 Dias, fiquei a saber que Gabriela Canavilhas, a nova Ministra da Cultura, vai manter o Museu de Arte Popular no seu espaço original, em Belém, e repensar a localização do famigerado Museu Mar da Língua, uma herança de Isabel Pires de Lima que continua a assombrar os seus sucessores na Ajuda. Por mim, a coisa tem bom remédio: é deitá-lo ao Tejo e passar a chamar-lhe Museu Rio da Língua.
A decisão de Gabriela Canavilhas, que só posso aplaudir, revela também o que Sócrates entende agora por política cultural: apagar qualquer foco de contestação do sector. À primeira vista, é tão diferente do estilo de Isabel Pires de Lima como a nova ministra da Educação é diferente da anterior, o que significa que não se trata de um exclusivo da cultura. O Diogo Belford Henriques atribui este recuo do Governo à iniciativa liderada por Raquel Henriques da Silva, que reuniu centenas de especialistas e de anónimos num abaixo-assinado de protesto contra o fim do Museu. Tem razão. É uma claríssima vitória de quem não se conformou com uma política cultural para brasileiro ver.
Dito isto, a mesma Raquel Henriques da Silva relembrou, quando se soube da notícia, que ainda falta o essencial. Depois da asneira de ter levado o espólio para o Museu de Etnologia, agora é preciso trazê-lo de volta a uma casa que precisa urgentemente de obras e de atenção. Antes de fazer novos museus, talvez não fosse má ideia cuidar dos que já existem. Ou tentam existir.

sábado, 5 de Dezembro de 2009

Outono


Árvores de Outono, Egon Schiele, 1911

Os portugueses acham tudo "normal"

«Portugal tem um défice de responsabilidade civil, criminal e moral muito maior do que o seu défice financeiro, e nenhum português se preocupa com isso apesar de pagar os custos da morosidade, do secretismo, do encobrimento, do compadrio e da corrupção. Os portugueses, na sua infinita e pacata desordem existencial, acham tudo "normal" e encolhem os ombros.»
Clara Ferreira Alves, Expresso, 22.10.2007

Qualidade da democracia dos outros

"Itália é uma democracia que perde em qualidade todos os dias". (Director de um jornal italiano que não gosta do Governo)
.
Pois aqui não, pá. Por aqui está tudo bem. E cada vez melhor.

Leitura recomendada


A ler, absolutamente. Com muita atenção. Por todos os que se interessam pela obra e pelo pensamento dos dois autores. E pela história desta amizade tão improvável, como exemplar.

Na aparência, mas apenas na aparência, estes homens estavam nos antípodas. Um, em Israel, dedicou-se ao estudo da mística judaica, tendo acabado por resultar o seu inquérito em algo de muito mais vasto: a abertura de novas linhas de interpretação da história do povo judaico e do Judaísmo. O outro, deambulando pelo mundo até chegar a Chicago, onde se veio a estabelecer com um dos grandes filósofos do século, contribuindo de forma decisiva para reactivar a reflexão sobre o problema teológico-político.

Um em Jerusalém, o outro «impenitentemente» ateniense. E, porém, em diálogo praticamente ininterrupto, desde 1933, até à morte de Strauss, quarenta anos depois. Um diálogo que se vai tornando cada vez mais rico, à medida em que se conhecem melhor e melhor conhecem o pensamento que o interlocutor vai explicitando na obra que desenvolve, conhecendo assim melhor o que os separa, mas convertendo-se isso, que os separa, em motivo de verdadeira interpelação e inspiração mútua.

As cartas finais, no ocaso da vida, são as mais belas. Strauss, o primeiro a pressentir o fim, faz um balanço da vida à aproximação da morte; retoma a divisa de Averróis, moriatur anima mea mortem philosophorum [que a minha alma morra da morte dos filósofos], e mostra-se-nos com uma invulgar capacidade de rir, com o seu amigo.

«Um rumor corre aqui», escreve-lhe Scholem em 1972, «segundo o qual Thomas [o filho da mulher de Strauss] não apenas emigrou para Israel e teria uma vida coroada de êxito, mas, também, que leva uma vida muito piedosa. Fania [mulher de Scholem], que lhe envia as saudações mais cordiais, afirma ver nisso um acto de justiça correctiva.»

«Os rumores de que fala a propósito de Thomas», confirma Strauss, «são exactos. A explicação piedosa da sua mulher, que parece subentender que o Todo-Poderoso pode paliar as consequências da minha apiquorisut [epicurismo, descrença radical] é plena de sentido, a meu ver.»

Strauss desenvolveu um princípio hermenêutico, segundo o qual um autor, por mais antigo e distante que seja, só pode ser compreendido genuinamente - e isso é possível - nos termos em que ele se compreendeu a si próprio. Strauss, muito pouco esotérico, nestas cartas, ajuda-nos com elas a abordá-lo nesses mesmos termos. Por muito estranho que possa parecer, a figura enigmática desta troca epistolar é Scholem.

A razão de Assis

Francisco Assis indignava-se ontem contra aqueles que pretendem "pôr em causa o carácter do primeiro-ministro". É um protesto escusado. Também eu me indigno. Já toda a gente percebeu que, pura e simplesmente, não é possível pôr em causa o carácter do primeiro-ministro Sócrates. Seria uma perda de tempo.

Just another day in paradise


Este mais recente caso com as Estradas de Portugal é um retrato do país que temos. Veja-se a sucessão de acontecimentos: (1) as concessões foram atribuídas sem concurso ou estudo comparativo; (2) entretanto os valores ‘derraparam’ enormemente, em cerca de 40% (i.e. 1110 milhões de euros); (3) as obras começam, porque as EP consideraram que não precisavam do visto prévio do Tribunal de Contas; (4) o Tribunal de Contas chumba as concessões; (4) ninguém leva o Tribunal de Contas a sério, pelo que as obras continuam e os bancos mantêm o financiamento; (5) as empresas alegam que têm garantias políticas de que o negócio não será afectado; (6) o Ministro das Obras Públicas, António Mendonça, acredita que o Governo tem ‘argumentos poderosos’ (que ninguém conhece) para convencer o Tribunal de Contas a aprovar as concessões; (7) garante-se que no futuro estas ‘chatices’ não se repetem, aprovando-se um novo Código de Contratos Públicos, que permite que se aceitem negociações de projectos que aumentem os custos.

Está lá tudo: negócios dados aos amigos; derrapagens imprevisíveis que eram previsíveis; obras sem autorização legal; o desrespeito pelas instituições políticas do país, neste caso o Tribunal de Contas; a relação promíscua entre poder político e empresas, que permite que se dêem garantias políticas contra a posição legal do Tribunal de Contas; criação de leis que tornam legais todas as ilegalidades necessárias para garantir os pontos acima.

E o mais triste – e a palavra é mesmo esta – é que muitos não encontrarão nesta sucessão de eventos qualquer motivo de alarme. Tudo normal. Afinal, temos o país que queremos.