Quarta-feira, Maio 21, 2008

Educação pública: Portugal versus Suécia

No passado dia 14, na Assembleia da República, o CDS apresentou um projecto de lei que visa reconhecer às escolas a autonomia necessária para o desenvolvimento de um projecto educativo próprio, estabelecer um regime de avaliação das escolas e dos alunos e consequente aumento da qualidade do ensino, e possibilitar aos pais a escolha da escola dos filhos. O projecto foi rejeitado com o voto contra do PS, PCP e BE (e favorável do CDS e PSD). Lemos no PÚBLICO que Paulo Portas referiu a necessidade da escolha da escola como forma de garantir aos pais pobres a liberdade de escolha a que têm direito e que lhes é factualmente vedada (ao contrário dos pais ricos que, podendo pagar propinas elevadas, podem sempre matricular os filhos em escolas privadas em detrimento das estatais). Em jeito de resposta, o deputado do PS, Bravo Nico, observou que o importante é que os filhos das famílias ricas tenham confiança na escola pública.

Na Suécia não se pensa como pensam os socialistas portugueses. Empenhados em proporcionar a melhor educação possível às crianças suecas, os políticos já concluiram que o importante é que as famílias tenham confiança nas escolas. Ponto final. Foi isto que tivemos oportunidade de aprender com Karin Nilsson, directora da Agência Sueca de Educação, que no dia 16, a convite do Fórum para a Liberdade de Educação, deu uma conferência na Gulbenkian. A educação pública na Suécia, disse Karin Nilsson, é composta por dois géneros de escolas: as municipais e as independentes. As escolas municipais equivalem, na versão descentralizada sueca, às nossas escolas estatais. Por sua vez, as escolas independentes, que podem pertencer a uma pessoa, a uma empresa, a uma congregação religiosa ou a uma cooperativa de pais, são o equivalente às nossas escolas privadas. Acontece que na Suécia, ao contrário do que se passa em Portugal, o Estado financia tanto as escolas municipais como as independentes. Assim, os pais suecos, quando planeiam a educação dos filhos, podem escolher em liberdade a escola de sua preferência. A educação pública na Suécia é “pública” no verdadeiro sentido da palavra: o Estado garante aos pais a educação que privilegiam para os filhos. Em portugal, pelo contrário, continuamos a confundir educação pública com escolas estatais.

A educação pública que vigora em Portugal foi desenhada na década de 1970, tendo como base o modelo sueco. Entretanto, a Suécia, pressionada pelos novos tempos, implementou na década de 1990 um conjunto de reformas fundamentais com vista à descentralização da educação e à autonomia das escolas. Por um lado, a responsabilidade da educação pública deixou de ser centralizada no Estado e passou a ser partilhada pelos municípios, isto é, as escolas deixaram de ser estatais e passaram a ser municipais. Por outro lado, a responsabilidade da educação pública evoluiu no sentido de se estender às próprias escolas. Por exemplo, antes das reformas da década de 1990, os professores eram contratados pelo Estado, depois passaram a ser seleccionados directamente pelas escolas, inclusivamente no que diz respeito à definição do salário a pagar. Um outro exemplo é o da definição dos currículos e programas das disciplinas que, sendo definidos ao nível estatal (i.e., pelo Governo, Parlamento e agências nacionais de educação), não são mais do que um conjunto de objectivos e regulamentos gerais que têm de ser cumpridos, mas cuja concretização detalhada fica a cargo das escolas (as pessoas presentes na conferência dada por Karin Nilsson não conseguiram evitar uma gargalhada sonora quando verificaram que a extensão dos currículos e programas definidos pelo Estado não vai para além de um pequeno livrinho).

Em Portugal, as reformas importantes continuam por cumprir. Não só estamos 20 anos atrasados, face à Suécia, no que diz respeito à descentralização da educação e autonomia das escolas, como ainda nos preparamos para outro atraso no que diz respeito à possibilidade dos pais escolherem a escola dos filhos. Será que já nem da Suécia gostamos? Talvez uma segunda versão do «Orgulhosamente sós!»

Ler mais...

Do casamento entre pessoas do mesmo sexo



Antes de debater o tema em epígrafe, vale a pena pensar no que seja a famosa discriminação de que tanto se queixam os movimentos de defesa dos gays. Há violência contra os homossexuais (na sociedade portuguesa e não só)? Há. Mas é a excepção e não a regra e, embora sempre condenável, deve ser combatida pela lei. Não se pode invocar casos isolados de violência para pedir um alargamento de supostos direitos das vítimas, sob pena de instrumentalizar sofrimentos pessoais por grupos de pressão. O paralelismo com o racismo é sempre enganador porque nem os gays vivem em apartheid nem existe um Ku Klux Klan que os persiga.
A discriminação de que são alvo os gays, tirando os tais casos de polícia de Viseu e quejandos, resume-se a um preconceito difuso que se concretiza em estereótipos, anedotas, manifestações de alarvidade em ajuntamentos de gajos (e, por vezes, gajas) e pouco mais. Católicos, judeus, alentejanos, gordos e, obviamente, membros de qualquer minoria étnica sofrem do mesmo, e nem por isso exigem mais direitos por fazerem parte de grupos específicos. O preconceito contra esses individuos existe, mas não se combate reclamando um estatuto de excepção para os grupos de que fazem parte. Combate-se, pelo contrário, exigindo o respeito pelos direitos de cada pessoa, não por pertencer a um grupo, mas por ser uma pessoa.
Dito isto, porque é que o direito de todos ao casamento heterossexual não discrimina os homossexuais?
Porque o casamento, na forma que hoje tem, se destina a regular um contrato entre duas pessoas que tem geralmente por efeitos públicos a existência de filhos e uma nova situação patrimonial dos cônjuges. Antes de explicar porque é que isto não se aplica aos gays, sublinhe-se que não estou a falar do casamento religioso, cristão, sacramental, mas do casamento civil, herdeiro directo do casamento romano. Para os romanos, o matrimónio não era um contrato público, mas apenas uma cerimónia privada em que o casal manifestava diante de algumas testemunhas a intenção de coabitar. Só contrato de dote era público e escrito, a fim de que a mulher pudesse recuperar o seu património de solteira e alguma segurança económica em caso de divórcio (frequente, de resto). Do mesmo modo, o reconhecimento público do casamento servia para assegurar a legitimidade dos filhos e o seu direito ao nome ou à herança, que dependiam em grande parte do pai.
Em suma, o casamento romano, que está na origem do nosso, não tinha por função enquadrar juridicamente o amor, os afectos ou a realização pessoal, mas proteger legalmente as partes mais fracas de uma relação socialmente desigual: a mulher e os filhos. O que, em certo sentido, se manifesta hoje, quando ocorre o divórcio, na obrigatoriedade da pensão de alimentos, paga pelo cônjuge mais rico (quase sempre o marido), ou nos deveres inalienáveis dos pais para com os filhos.
Ora, como é óbvio, este complexo jurídico não tem cabimento numa relação gay porque não há filhos nem desigualdade entre os sexos. Logo, o chamado casamento homossexual é juridicamente inútil e socialmente desnecessário.
Não sou eu que o digo: são os números. Se o casamento que reivindicam fosse assim tão importante, o número de gays que se casam nos países que permitem o casamento entre pessoas do mesmo sexo seria tão baixo?
Vejamos. Na Noruega, entre 1993 e 2001, houve 1293 casamentos gay para 196 000 heterossexuais. Na Suécia, entre 1995 e 2002, 1526 para 280 000. Na Holanda, entre 2001 e 2005, 8127 casamentos gay para uma população total de 16 milhões. No Massachusets, em 2003 e 2004 (primeiros anos da lei que autorizou os casamentos gay), 7741 para uma população total de 6 milhões. Na Espanha, entre Julho de 2005 e Junho de 2006 (primeiros dados oficiais da lei que autorizou o casamento gay), 1275 para 209 125 heterossexuais no mesmo período. And so on.
Não é difícil concluir que o casamento não é propriamente a aspiração maior dos homossexuais. Então, por que razão o apresentam assim? Porque o que querem realmente os que o pedem é o reconhecimento social e político da homossexualidade. E isso, apesar da compreensão que se possa ter pelo método, não deixa de ser ilegítimo. Primeiro, porque é instrumentalizar uma instituição cujo equlíbrio interessa a toda a sociedade para fins particulares de um grupo de pressão. Segundo, porque a homossexualidade, uma opção privada e cujos efeitos são privados, não pode ser fonte de direitos reconhecidos pelo Estado.
Algo me diz que voltaremos a falar de tudo isto.

PS (salvo seja): Como vou passar os próximos dias a visitar monumentos no Crato e em Alter do Chão, é pouco provável que consiga responder aos eventuais comentários. Prometo retomar a conversa para a semana.

Ler mais...

Doenças Incuráveis

Ler mais...

Terça-feira, Maio 20, 2008

Ele detesta símbolos ao contrário

Ler mais...

Náusea

Poucas pessoas terão tido estômago para assistir a toda a entrevista que Luis Filipe Menezes deu há minutos a Constança Cunha e Sá. Sim, é uma questão de estômago, que é um orgão mais resistente do que o cérebro.
Fiquei mal disposto. Mesmo fisicamente.
O verdadeiro Menezes era o desta entrevista. Não aquela coisa mole que se arrastava tristemente por restaurantes e barbeiros na reportagem "do lado humano" da Sic em Gaia. Ele agora está mais solto. E revela-se.
Aquilo a que se assistiu agora foi uma coisa miserável. O homem não se controlava em contradizer-se descaradamente. Inacreditável.
Parecia destilar ressentimento (quase ódio?) por todos os poros. De todas as vezes que se referia a Pacheco Pereira, a Manuela Ferreira Leite, a Marcelo Rebelo de Sousa, fê-lo num registo, num tom de ressentimento pessoal.
Lá voltou o queixume do "símbolo ao contrário" (dito por ele que ia virando, não o símbolo, mas o próprio Partido). "O dr. Pacheco Pereira", que "ganha a vida" (esta expressãozinha deliciosa do ganhar a vida...) a atacar o Partido e os "sucessivos líderes". É pago para isso, portanto. Embriagado de fel, prosseguiu que o terríbil Pacheco até "derrubou Cavaco Silva" [sic!] E depois, espumando, diante duma Constança estupefacta, o homem deu um toquezinho lumpen à injúria: "ou acha que é a vender livros sobre o dr. Cunhal que o dr. Pacheco Pereira ganha a vida?" Lindo, não é? Está aqui muita coisa: o desprezo bronco (sempre popular) pelo "intelectual" que sabe ler e escrever livros e, ainda por cima, vejam só, livros "sobre o dr. Cunhal" e coisas assim esquisitas. "As bases querem-no, ao tal "dr. Pacheco Pereira", fora do Partido", disse Menezes sem parar quieto na cadeira. Logo que a jornalista lhe perguntou se ele podia "falar pelo sentimento das bases", respondeu, atónito com a perplexidade dela, que sim, que por enquanto ainda podia. Então não podia? Elucidativo.
Tudo isto sempre numa sofreguidão do disparate que não me lembro de ter visto em algum político. Nem muitos ditadores do terceiro mundo conseguem ser tão criativos.
Afirmou a sua "equidistância" relativamente aos três candidatos ao Partido. Insultando-nos a todos, teimou na afirmação da sua "equidistância".
Ele é, de facto, uma pessoa invulgar. Recebe Santana e Passos Coelho, diz não querer receber Ferreira Leite, e chama-lhe "a pior ministra das Finanças dos últimos trinta anos", uma "má ministra das Finanças e uma péssima ministra da Educação". Nesta mesma entrevista fala dela com rancor e chega a compará-la desfavoravelmente a José Sócrates! Equidistância, portanto. Heroicamente afirmada. Nas nossas barbas.
Constança tenta mostrar-lhe a contradição e veio então a pérola da noite em aforismo:
"A equidistância tem o limite do carácter."

É verdade.

Ler mais...

Não é por nada, mas até os gays deviam ter algum sentido da realidade



O Supremo Tribunal da Califórnia, depois da batalha de recursos que acompanha sempre estas coisas por terras do Tio Sam, declarou a constitucionalidade do casamento entre pessoas do mesmo sexo. E logo Andrew Sullivan, a mais famosa improbabilidade da blogosfera americana (gay, católico e republicano) veio saudar a memória de Lincoln, fazendo um paralelo implícito entre o fim da escravatura e o movimento pelos "direitos dos homossexuais".
É por estas e por outras que não consigo levar a sério o orgulho gay.
Convém lembrar que a América, há apenas meio século e não no tempo de Lincoln, tinha escolas separadas para brancos e negros, lugares reservados nos autocarros segundo a cor da pele, casas-de-banho públicas diferentes para raças diferentes e até uma organização bastante popular em certas regiões, o Ku Klux Klan, que se dedicava com zelo e regularidade ao velho exercício da "caça ao preto".
Comparar o racismo com a suposta homofobia do casamento heterossexual é um pouco insultuoso para todos os que, mesmo depois da conquista dos direitos civis, eram obrigados a ir para as aulas sob escolta da polícia.
Quando forem alvo de verdadeira violência, como parece que aconteceu o ano passado ali para os lados de Viseu, os gays vão comparar-se com quem?
Com os tibetanos?

Ler mais...

A Doença do Popper

Nos comentários ao meu último post, aparece um tal "Karl Popper" apontando uma contradição no meu texto por eu ter sugerido que a resposta de MFL é "irrefutável". Sendo "irrefutável", a resposta situar-se-ia além das regras da cientificidade, e por isso mereceria a repreensão que lhe foi dada. (É para rir, não é?)
A minha resposta poderia ser uma outra pergunta: mas os entrevistados responderam na qualidade de cientistas ou de políticos? Contudo, não vale a pena recorrer a esta alternativa. Vamos antes supor que o candidato X (PPC, PA, SL ou o outro) respondeu: "Em princípio, acho que o Estado deve preferivelmente tributar o consumo". Presumo que seja uma resposta de "visão para o País". Apresenta um "rumo". Toma uma "decisão". Mas pergunto: esta proposição é falsificável? Não. Como MFL torna implícito, teríamos de dizer algo como "para obter maior equidade na distribuição de rendimento (um dos tais objectivos de política de que, segundo MFL, a valorização de cada imposto depende), é preciso tributar o consumo" para obter uma proposição falsificável. E, por acaso, esta é seguramente refutada por um raciocínio económico elementar. É simplesmente falsa. Mas para chegarmos a esta conclusão "popperiana" temos de definir os objectivos de política económica e financeira, quaisquer que eles sejam. De outro modo, esta conversa não faz sentido algum.

Ler mais...

Debate civilizado! Decisão bárbara?

Tocamos aqui num tema delicado que convida a alguma prudência na análise, mas suspeito que esta via de investigação científica, "se tem", como escreve a jornalista do PÚBLICO, "o potencial de permitir um dia salvar a vida a milhões de pessoas", não deixa de estar hoje a condenar milhões de pessoas em potência. Por outro lado, a jornalista refere a "abertura de espírito dos deputados" numa decisão que, segundo me parece, não é senão uma manifestação de fechamento espiritual. Falamos a mesma língua, mas não vivemos no mesmo mundo.
Ps. "Claro que os embriões só poderão ser fabricados se se provar previamente que a investigação para a qual vão contribuir é necessária e útil." Claro.

Ler mais...

Segunda-feira, Maio 19, 2008

O Drama da Resposta Sonante

O seguinte post aparece no blogue de apoio a Pedro Passos Coelho:

«A Lusa quis saber a posição de princípio dos cinco candidatos à presidência do PSD sobre o sistema fiscal e perguntou-lhes se o Estado deve taxar preferencialmente os rendimentos individuais, os rendimentos das empresas ou o consumo. “A valorização da importância de cada imposto tem de, em cada momento, tomar em atenção a conjuntura económica e os objectivos de política a prosseguir”, respondeu a antiga ministra das Finanças Manuela Ferreira Leite.»
A conclusão do autor do post é a seguinte: "Estamos esclarecidos..."
.
Presumo que esta expressão queira dizer que a resposta de MFL é incongruente ou insuficiente ou até confusa. Faltou-lhe uma resposta sonante? A mim, parece-me que a resposta é simplesmente irrefutável. Será preciso explicar que dogmatismos tolos em matéria de política fiscal (e financeira) revela mais desconhecimento da realidade económica do que qualquer outra coisa? Isto faz-me lembrar um padre americano que conheci que alegava em favor da inflação zero que essa era a recomendação da Bíblia...

Ler mais...

Liberalismo ou conservadorismo?

O liberalismo e o conservadorismo apresentam contornos distintos quando olhados sob a perspectiva da política, da economia, da religião e da ciência. Daqui resulta que as pessoas podem ter um pensamento liberal em alguns assuntos (p. ex., a defesa do mercado livre) e conservador noutros (p. ex., a penalização do aborto). Mais ainda, não é difícil encontrar pessoas com um pensamento simultaneamente liberal e conservador sobre um mesmo assunto (p. ex., a legalização do casamento homossexual como incentivo à estabilidade das relações entre pessoas do mesmo sexo). Isto acontece porque a vida humana é acompanhada de contradições irredutíveis a chavões ideológicos. De qualquer modo, um chavão é uma chave que abre muitas portas e nos pode ajudar a ver com maior clareza alguns problemas.

A ideia de liberalismo radica no início do século XVI e evoluiu a par do projecto revolucionário a que habitualmente damos o nome de modernidade. A palavra "liberal" foi cunhada no início do século XIX para reunir os partidários das revoluções liberais em curso, contra as quais se insurgiam os conservadores partidários da restauração do antigo regime. O projecto revolucionário moderno amadureceu e atingiu a sua expressão política máxima no século XX com as revoluções totalitárias. Postos perante os limites do projecto revolucionário moderno, e face à ausência de instrumentos teóricos capazes de perceber a natureza daquilo que o Miguel Morgado aqui resumiu como uma "tempestade de sangue e aço", tornou-se menos evidente a oposição entre liberais e conservadores. É o período em que os conservadores se diziam "amigos do liberalismo" e denotavam algum interesse pela leitura de Burke e Tocqueville. Mas é também o período em que os liberais se confrontaram com a obrigação de retornar à metafísica clássica e cristã que o seu projecto revolucionário moderno quis abolir.

No século XXI, o aspecto do liberalismo e do conservadorismo continuará a espelhar dois posicionamentos possíveis face ao projecto revolucionário moderno. Superada a ameaça totalitária, e não se vislumbrando no horizonte uma alternativa ao regime democrático liberal, o projecto revolucionário moderno vai transitando do domínio da política para o domínio da tecnologia. E neste domínio, talvez ainda mais do que no domínio da política, são os olhos conservadores da metafísica clássica e cristã que melhor nos podem guiar contra os perigos do liberalismo de vanguarda.

Ler mais...

Saudades Improváveis


Ler mais...

Manuela cravo e canela

O Diário de Notícias publicou ontem um texto meu de apoio a Manuela Ferreira Leite, à semelhança de outros favoráveis aos restantes candidatos. Devido à falta de espaço, o que escrevi saiu com alguns cortes de pormenor. Aqui fica o original.

Quando votarem nas directas de 31 de Maio, os militantes do PSD arriscam-se a escolher o próximo Primeiro-Ministro de Portugal. Espero que seja Manuela Ferreira Leite. Segundo as estatísticas e os opinadores, eu devia ser a última pessoa a esperar tal coisa. Desconfio da social-democracia, pertenço à famosa “geração rasca”, andei em manifs contra o cavaquismo, sei pouco de finanças e tenho uma biblioteca (mas nunca inalei). Tudo me afastaria de Manuela Ferreira Leite, essa tecnocrata do passado. O que é que me leva a cometer o voto na senhora, correndo o risco de ser expulso da minha geração?
Um sentimento pouco nobre e muito simples: o medo de que o partido no qual sempre votei, o PSD, morra de irrelevância. Nos consulados de Pedro Santana Lopes e Luís Filipe Menezes, o PSD entrou num ciclo de esquizofrenia política que o fez perder o contacto não só com o país, mas com a própria realidade. O resultado foi a maioria absoluta do PS, oferecida de bandeja pela incubadora, e a inexistência de oposição com Menezes, que prometeu descer impostos e não descer impostos, desmantelar o Estado em seis meses e não fechar serviços públicos, assinar pactos com o Governo para as obras públicas e rasgar pactos com o Governo para a justiça, tudo e o seu contrário, ao sabor do vento, dos astros e dos soundbites do Dr. Cunha Vaz. Além das tiradas baixinhas, muito baixinhas, sobre os colos de Sócrates, que com Santana eram uns e com Menezes eram outros.
Dir-me-ão que esta ausência de vida (de vida inteligente, pelo menos) acontece sempre que se está longe do governo. Mas isto não é apenas uma travessia do deserto. Isto é o deserto. A ameaça que paira sobre o PSD em 2009 não é ganhar ou perder as eleições, mas ganhar ou perder a vergonha que lhe resta. Não é o regresso ao poder que está em causa, mas a razão de ser do partido. Se o PSD não serve para fazer oposição, também não serve para governar. E, sem o PSD, não há verdadeira alternativa ao PS, o que quer dizer uma nova vitória de Sócrates.
Dos candidatos às directas do PSD, só um pode impedir esse triste fado: Manuela Ferreira Leite. Só ela tem experiência e peso para ganhar a guerra. Santana Lopes foi derrotado pelo actual Primeiro-Ministro, por muitos, e Passos Coelho é o herdeiro oficial do menezismo. Está tudo dito. O país precisa da seriedade de Manuela Ferreira Leite porque, depois das falsas promessas de Sócrates, a única coisa que pede hoje a um político é que seja sério. Com as suas promessas e com os nossos impostos. Não quer piedosas intenções de “esperança” ou de “mudança”. Isso fica para cada um de nós. Quer alguém que saiba o suficiente da vida real para confiar mais nas pessoas, nas famílias, nas empresas, na sociedade civil do que em meia dúzia de fórmulas produzidas nos gabinetes de marketing ou nos jantares do aparelho.
Com Manuela Ferreira Leite, não teremos rosas. Teremos cravo e canela: o sabor amargo da luta e o sabor doce da vitória. Até 2009 e em 2009.

Ler mais...

Colóquio/Letras



Uma das mais marcantes revistas portuguesas de literatura, a Colóquio/Letras, digitalizou todos os seus números, desde 1971. O resultado pode consultar-se aqui.

Ler mais...

Correio Expresso: Indy is back



O Expresso traz uma entrevista com Harrison Ford, o eterno intérprete de Indiana Jones. Vinte anos depois da última sequela, aí vem o quinto filme do arqueólogo aventureiro. No entanto, mais do que a longevidade do actor, o que me surpreende é a longevidade da personagem. Qual será o segredo?
Indiana Jones era um herói de acção, mas com humor. Tal como James Bond, outro canastrão com o qual partilhou o sucesso prolongado (não é por acaso que, no último filme, Sean Connery fazia de pai do protagonista). Só que Indy não tinha as miúdas, nem a tecnologia, nem a missão de salvar o mundo. A sua ambição parecia mais modesta. Era quase monogâmico, pelo menos em cada episódio. Só tinha um chapéu, um chicote e um revólver. Ao contrário de 007, que vencia a Guerra nada Fria na luta corpo a corpo, não estava ao serviço de nenhuma causa. Como é que um sensaborão destes se torna um ícone dos anos 80?
Indiana Jones era um herói pós-ideológico numa época cansada de ideologias. Não combatia pelo Ocidente, ainda que fosse até ao fim do mundo para livrar dos maus os símbolos da cultura judaico-cristã (a Arca, o Graal). Não invocava o mundo livre nem Sua Majestade, mesmo quando enfrentava os nazis. Não dedicava a vida à ciência porque era mais caçador de tesouros do que professor universitário. Desenrascava-se por si, e era tudo.
Os anos 80 e 90, depois de um século XX profundamente ideologizado, estavam maduros para este cinema individualista. É a época em que Margaret Thatcher diz "there is no such thing as a society" e triunfam os yuppies. Indy Jones foi a resposta de Hollywood ao ar do tempo, cruzando duas figuras míticas da cultura de massas americana: o detective solitário e o cowboy errante.
Quando estrear Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, veremos se a mitologia ainda diz alguma coisa a quem vai ao cinema no século XXI.

Ler mais...

Sob a calçada, o deserto (II)



Continuo a transcrever a peculiar visão de Raymond Aron sobre o Maio de 68 francês, sempre a partir d`O Espectador Comprometido, a extensa entrevista a Dominique Wolton e Jean-Louis Missika.

"R.A.- Aqueles estudantes estavam em vias de destruir a Universidade antiga sem que construíssem outra. Ao mesmo tempo, eles tentavam lançar o caos na economia francesa, que estava reconstruída havia uma geração. Reencontravam-se nos acontecimentos de Maio de 68 recordações das jornadas revolucionárias do século XIX. Mais uma vez, tinha-se a impressão de que os franceses eram incapazes de fazer reformas e capazes ao mesmo tempo de fazer uma revolução. (...)
D.W. - O que é que o chocou mais? A revolta dos estudantes? A atitude dos professores? As greves e a crise social? Ou a deliquescência do Estado?
R.A. - A deliquescência do Estado impressionou-me, exageradamente talvez. A ideia de que um Estado que se apresentava de uma forma decente, respeitável, desse a impressão de se desmoronar com golpes tão fracos, era desencorajante. A França estava de tal modo centralizada e, no regime gaullista, tudo estava de tal forma concentrado na pessoa do general De Gaulle que se, por razões acidentais, a sua autoridade fosse atingida, tudo seria posto em causa. Era ridículo que os tumultos de estudantes na primeira semana fossem tratados por De Gaulle no Conselho de Ministros."
(cont.)

Ler mais...

Os Loucos Anos 80 (44)

Ontem, passou-se mais um aniversário da morte de Ian Curtis. Passado o dia de luto, é apropriado publicar aqui alguns excertos de um texto memorável de Miguel Esteves Cardoso de 1981 (na verdade, a ideia foi do FCG, e foi ele que me mostrou o texto, que eu, de resto, desconhecia, mas apetece-me ficar com os louros). O texto acaba assim:
"Nada estranha que, ao fazer-se o balanço do que foram os primeiros anos da década de 80, se faça apenas o balanço dos Joy Division. De facto, à parte outras incidências marginais de inovação, são eles que contam e contêm o destino da música".
.
O texto propriamente dito consiste em pequenos comentários a algumas das músicas mais representativas dos Joy Division - duas das quais foram aqui recordadas nesta série dos Loucos Anos 80, "Ceremony" e "Love will Tear Us Apart". Sobre a banda, MEC escreve:
"Joy Division é só um lugar da música. Onde não há mais ninguém e é terrível viajar de passagem, é geral ficar e não poder fugir. Joy Division é só os escombros de uma paisagem, todas as nenhumas tonalidades do negro fixo, a sorte, e a parte branquíssima da solidão. Onde não há mais ninguém e o animal, permanentemente ferido, acho o seu uivo final. Joy Divison é apenas um problema que se pôs à música. E se é trágico que não tenha solução, é certamente belo conhecê-lo inteiramente. E dizê-lo.
Que são esses pedaços e cacos que trazem na palma da mão como se fossem sementes para plantar, bagos para comer?"
.
Sobre "Dead Souls", MEC diz:
"Tragos os sonhos usados e gastos à boca da alma, onde derramam e corroem sem jamais se perderem, fechados na prisão tonta do corpo. Alguém os leve para outros; lugares, outros, homens, outros.
O transporte é certo de mão em mão, quando eles se contam, quase sempre depois do sexo e da tarde, quando eles se cantam. Levá-los sem que me levem com eles, na bonita esperança de que de mim não façam a mínima parte. Ficaria com a alma, não intacta, mas ainda inteira, quase pronta para o que lhe restasse, preparada como se fosse nova, menina demasiado envelhecida, velha com uma saia de rapariga, a sorrir como se a sua vida fosse continuar.
Ficaria com outra alma que não a minha. E a tua."

Aqui fica o video de uma versão ao vivo de "Dead Souls"

Ler mais...

Um génio que quer ser um santo

Oh não, José Sá Fernandes acabou de ter uma ideia. O vereador fazia uma visita ao Museu Nacional de Arte Antiga e ao Museu do Oriente e de repente... teve uma ideia! E estavam os Lisboetas descansados... Mas ele não descansa. Ele tem ideias. Aparecem-lhe. Ideofanias.
Qual é a ideia? Um Museu de África.
A cultura africana? Há uma cultura africana? Qual? O que é isso? Há uma cultura em bloco desde Marrocos até ao Cabo? Toda a cultura africana? Qual o sentido deste 'toda'? Segundo o vereador, a cultura africana é "uma realidade que faz parte integrante da própria identidade lisboeta". Mas o que é que isto quer dizer? Onde está essa "cultura africana" que é passível de ser exibida num museu? Tratando-se de um museu, refere-se ele a algo de africano constitutivo da identidade de Lisboa e que já só pertence ao passado? Bem, os Berberes estiveram por aqui uns séculos e, se não me engano, eram africanos. Os escravos negros depois? Pois há inúmeros vestígios "simbólicos" (na música popular, por exemplo) e "materiais" atribuídos e atribuíveis a essas pessoas que para aqui eram importadas. Mas tudo isso não é já "africano". É precisamente lisboeta. Já entranhado.
Isto é uma espécie de multiculturalismo piedoso? Mas até para isso é demasiado absurdo.
E para quando um Museu do Período Muçulmano? Com uma subsecção almorávida, para "estarem representados todos os seus elementos". E Lisboa não devia homenagear os Romanos, caramba? E os Visigodos? E não haverá por aí elementos cartagineses? - e estes até eram africanos.
E se tivéssemos juízo?

Ler mais...

Domingo, Maio 18, 2008

Uma dúvida...

Ler mais...

Saudades de Co Adriaanse?


Ler mais...

Por falar em mediocridade...

... já repararam nos nossos telejornais?

Ler mais...

The right man in the right place

Foi Rui Gomes da Silva, anteontem, o escolhido para "justificar", apresentar as "razões", digamos assim, do voto esmagador (menos três) do PSD na aprovação daquela coisa glossofóbica no parlamento.

É sempre bonito ver assim aquelas desvairadas gentes de desvairados Partidos (quase) "todas sempre unidas no caminho", neste caso não da "verdade", mas certamente da "modernidade" da pátria e da lusofonia e tal. Para além disso, foi com alívio que vi ter sido aquele o escolhido do PPd/psd para tomar a, por assim dizer, palavra. Sobre aquilo. Uff. Isso mostra como as coisas ainda estão no seu lugar.

Ler mais...

Sábado, Maio 17, 2008

A Estreiteza do "Liberal-Conservadorismo"

Aqui está implícito que o conservadorismo ou as "distinções políticas que ainda hoje animam os debates" resultam da reacção à Revolução Francesa. É por isso que Burke aparece uma vez mais como o fundador deste movimento que se apresenta sempre como uma "disposição". Mas isto é ignorar a latitude que o termo "conservador" ou "conservadorismo" adquiriu nos últimos 50 anos. Digamos que Burke funda uma forma específica de conservadorismo, uma forma moderna de conservadorismo, historicista e tradicionalista.
Todavia, o século XX passou por nós numa tempestade de sangue e aço. No campo de batalha, no campo de concentração, como no domínio do pensamento. Com isso, o conservadorismo (ou uma parte dele) aprendeu que a sua verdadeira consistência depende em absoluto, e mais do que qualquer outra coisa, de uma reflexão séria sobre as "ilusões" da Modernidade.
P.S. A quem interesse esta coisa do "liberal-conservador", deixo aqui o que escrevi sobre este assunto neste blogue há já muito, muito tempo.

Ler mais...

Sexta-feira, Maio 16, 2008

O erro de Damásio

Façam o favor de ir aqui ao lado ler este texto.
Vale a pena. A sério.
Há sempre coisas que têm de ser ditas. Às vezes, há quem as diz.

Ler mais...

Taxionomia


Ai, ai, é precisa muita paciência quando deparamos com coisas como esta (ou esta ainda)... Enfim, assim como há aquelas pessoas que passam a noite a sonhar com ladrões, há também umas que a passam, em transe estremunhado, a sonhar com Marxistas...
O João Miranda (ou eu) é, não um humano, mas "uma forma moderada" de Homo habilis?...

Ler mais...

Da série "A concorrência faz melhor"

Dois bons posts sobre um bom artigo.

Ler mais...

Correio Expresso: Socrates, crime e castigo



O Expresso chama ao desfecho da telenovela venezuelana de Sócrates, a saber o pedido de desculpas por ter fumado no avião, uma "infantilização da política".
Realmente, o Primeiro-Ministro não sai lá muito engrandecido da história. Não sei o que será mais ridículo: se imaginar o "animal feroz" a dar umas passas às escondidas, se ouvir o chefe do Governo a alegar desconhecimento da lei, se ver o pobre viciado a pedir humildemente perdão para, um dia depois, acusar os censores de "calvinismo moral". A farpa era para Louçã, o inquisidor-mor do reino, mas, se a censura é calvinista, porque prometeu Sócrates expiar o pecado abandonando o vício? Alguém lhe encomendou a penitência?
Sócrates tem a consciência pesada. O calvinismo de que agora se lamenta é o mesmo que a sua maioria revelou quando fez uma lei do tabaco que tratava os fumadores como hereges, descrentes na religião da saúde e perigosos para a salvação alheia. O anátema voltou como uma maldição.
Pequena maldição, note-se. "A um ano de eleições, que consequências terá para a sua imagem a atitude José Sócrates?", pergunta o Expresso.
Nenhumas. A um ano de eleições, os portugueses têm mais em que pensar. E, quando lá chegarem, já se esqueceram. Em Portugal, como sabemos desde Sá Carneiro, a vida privada dos políticos não faz perder eleições. Fracos juízes, não condenamos ninguém nem usamos de misericórdia. Talvez alguns pensem que isto é catolicismo hipócrita. Eu prefiro assim. Ergo a minha taça à hipocrisia - enquanto não forem ambas (taça e hipocrisia) proibidas.

Ler mais...

Os Loucos Anos 80 (43)

Para ficarmos por mais alguns momentos nesta linha do "ligeiramente canastrão", The Mission, 1987.

Ler mais...

Quinta-feira, Maio 15, 2008

Hoje é um dia tão bom como outro qualquer

Mais uma pausa.

Ler mais...

Então não se vê?

Leio no Diário de Notícias que tem havido "uma notória transferência de apoios das hostes menezistas para o campo de de Passos Coelho".
E pasmo com a má fé dos jornalistas.
Então não se vê que ele é o candidato da renovação?

Ler mais...

Um pequeno passo


Quem insiste em negar as diferenças entre direita e esquerda faria bem em ver o que se passou ontem na Assembleia da República. O CDS apresentou um projecto de lei com o objectivo de proporcionar aos pais maior liberdade na escolha do estabelecimento de ensino (ver aqui). O PSD votou a favor. PS, PCP e Bloco votaram contra.
O projecto partia de um princípio simples: o serviço público de educação é assegurado por qualquer escola, pública ou privada, que seja reconhecida pelo Estado. Em consequência, o CDS propunha que o Estado financiasse do mesmo modo as escolas públicas e privadas, através de um "contrato de autonomia" que garantisse o ensino gratuito para todos.
A esquerda acusou o CDS de querer "dar um dinheirinho do Estado às escolas privadas". Como de costume, engana-se. Este projecto conseguiria, se levado à prática, que a escola privada não fosse só para os ricos. Mas a verdadeira questão não está aí. A verdadeira questão é que a esquerda teme a concorrência do ensino privado, geralmente melhor, à escola pública. E teme-a porque a escola representa o instrumento de engenharia social com que a esquerda sempre sonhou, quantas vezes contra a liberdade dos pais e dos alunos. Em nome da igualdade de oportunidades para todos, o que defende é uma igualdade na mediocridade a que só alguns podem escapar. Segundo li no Meia Hora, o PS quer "que o filho da família mais rica possa ter confiança na escola pública". Mas não vêem os socialistas que as famílias pobres que não confiam na escola pública, e são muitas, não têm qualquer alternativa? Chamam a isto igualdade de oportunidades?
Compreende-se o dilema da esquerda. Garantir uma liberdade de ensino que não seja um privilégio de classe teria o terrível efeito de retirar ao Estado o monopólio da escola. E a esquerda, sempre pronta a clamar pela liberdade desde que seja ela a administrá-la, não suporta isso.
Num país em que a liberdade de escolha ainda é um luxo e não um direito básico das famílias, como há uma semana a Ministra da Educação disse na TVI, o projecto de lei do CDS representa um pequeno passo em frente. Talvez o momento não seja o mais indicado, agora que a educação deixou de abrir os telejornais com o fim da novela do telemóvel, mas sempre é alguma coisa. Estranhamente, a blogosfera liberal não prestou muita atenção. Não dá para bater nos alunos ou nos professores, mete essa coisa vil que é a política parlamentar e interessa mais saber quem no PSD é menos social-democrata.
Depois queixem-se...

Ler mais...

Cachimbos de lá

Ray Caesar, Castor (2007)

Ler mais...

(Já devia ter escrito isto antes) M Ferreira Leite e McCain

Desde o início que me parece que, salvo as devidas proporções, há 3 grandes coincidências na actual campanha de MFL, por um lado, e o início da campanha de John McCain, por outro:
- O anúncio do "straight-talk express" de McCain é idêntico ao que MFL disse a propósito de nunca mentir e de dizer a verdade aos portugueses.
- O carácter pessoal como melhor indicador da actuação futura do estadista; a aposta na regeneração das instituições com o contributo das virtudes pessoais do candidato. Se bem que, neste aspecto, a constante referência de McCain à leadership é decisiva. MFL faria bem em seguir-lhe os passos, apesar do vazio na cultura política portuguesa, que sofre de alergia a referências fortes à leadership.
- Uma certa unidimensionalidade - McCain com a política externa, MFL com a economia, em geral, e as finanças, em particular.

Reduzir a campanha de um e de outro (no caso de McCain o seu início) a estes três pontos seria uma evidente caricatura. Mas são 3 grandes coincidências (a que se poderia acrescentar a idade dos candidatos...)

Ler mais...

Quarta-feira, Maio 14, 2008

14 de Maio, 1948


Wenn Ihr wollt, / Ist es kein Märchen.

Wenn Ihr wollt...

Ler mais...

Sob a calçada, o deserto (I)

Ando há tempos para postar umas notas sobre a memória do Maio de 68, essa jornada épica rumo à felicidade e tal, mas decidi-me por uma coisa mais simples. O que se passou foi há muito descrito por Raymond Aron, testemunha privilegiada e menos hagiográfica do que os saudosistas de serviço. Aron publicou um livrinho-entrevista, La Révolution Introuvable, poucos meses depois dos acontecimentos. Voltaria a analisá-los numa conferência em Israel em Fevereiro de 69, editada em Junho desse ano na Political Science Quarterly, e em Le Spectateur Engagé, outro livro-entrevista saído em França em 81 e entre nós dois anos depois, com o título O Espectador Comprometido.
Aqui no Cachimbo, vou transcrever alguns excertos desta última obra, na tradução portuguesa da Moraes. O vivíssimo diálogo (até se ouvem as cadeiras a voar) com os soixante-huitards Jean-Louis Missika e Dominique Wolton, estudantes universitários à data, é a melhor introdução que conheço ao tema. E mostra, ao mesmo tempo, como a atitude perante 68 dividiu profundamente a França entre direita e esquerda nas décadas seguintes, tanto como a escolha entre capitalismo e socialismo - de que era, aliás, um reflexo. Até hoje. Não foi Sarkozy quem prometeu acabar com "o espírito de 68"?
"DW- Em Maio de 68, apareceu como porta-voz da maioria silenciosa. (...)
JLM- Era um conservador?
RA- Se isso vos dá prazer... De facto, era muito hostil à organização da Universidade, tal como ela era. Mas não era partidário da sua destruição, tal como vocês tinham vontade de fazer. (...) A agregação não era mais que uma questão entre todas aquelas que eram discutidas. Em Maio de 68 houve o quê? Uma semana de tumultos de estudantes. Depois duas semanas de greves que se alargaram progressivamente a quase toda a França e que paralisaram a vida económica do país. Houve uma semana de crise política, em que quase se pensou que o regime podia desmoronar-se sob os golpes de Cohn-Bendit. Nesse dia, na última semana, fui gaullista.
DW- Ah! Finalmente!
RA- E quando ouvi o discurso do General De Gaulle na rádio, a 30 de Maio, fiquei convencido de que o assunto estava resolvido. Ouvia em minha casa com amigos e gritei: Viva De Gaulle! (...) Eu achava inteiramente indigno que bandos de garotos derrubassem o governo, o regime e a França política."
(cont.)

Ler mais...

Terça-feira, Maio 13, 2008

Não curto bué

O patusco dicionário "para jovens" do Instituto da Droga e da Toxicodependência, o tal que chama "betinho", "cócó" e outros mimos pós-modernos quem não xuta prá veia, não me surpreende muito.
Já sei do que a casa gasta.
O que me surpreende é que alguém use o dinheiro dos nossos impostos para explicar aos "jovens", coitados, tão perdidos andam eles pelos dialectos da narcopinta, que "curtir" significa "ter prazer".
Os senhores do IDT fumam coisas, de certeza. Os que não são betinhos.

Ler mais...